Fiocruz Ceará conclui Curso Livre de Agentes Populares em Saúde do Povos das Águas

A Fiocruz Ceará concluiu, no dia 18 de março de 2025, o Curso Livre Agentes Populares de Saúde dos Povos das Águas (turma Ceará). Iniciado em dezembro de 2024, as aulas foram divididas em cinco módulos com carga horária de 60 horas, sendo 20 horas por módulo – 10 horas presenciais (Tempo Escola) e 10 horas em atividades de campo (Tempo Comunidade). Financiada com recursos do Ministério da Pesca e Aquicultura, a iniciativa faz parte do “Projeto Formação-Ação em Saúde e Ambiente em Territórios da Pesca Artesanal no Litoral Nordestino”, coordenado pelo Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco) com turmas em quatro estados do Nordeste: Pernambuco, Ceará, Paraíba e Bahia.



O encerramento foi marcado pelas apresentações das intervenções realizadas pelas (os) educandas (os) com as comunidades nos territórios com foco nos problemas identificados como prioritários pelas respectivas comunidades, e pela apresentação das sistematizações das experiências que promovem a saúde e a vida nos territórios por meio de linguagens como cordel, poesia, álbum, vídeo e cartaz. “O curso foi um processo muito rico de construção coletiva que envolveu instituições de ensino e pesquisa, entidades e movimentos de pescadoras e pescadoras artesanais de quatro estados do Nordeste”, enaltece Ana Cláudia Teixeira, coordenadora da turma do Ceará.

Na ocasião, estiveram presentes representantes do Laboratório de Saúde, Ambiente e Trabalho (Lasat) do Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco) – Bianca Peixinho e José Gonçalves; do Conselho Pastoral dos(as) Pescadores(as) (CPP) – Shirley Almeida, da Célula de Atenção à Saúde das Comunidades Tradicionais e Populações Específicas da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará – Valéria Mendonça, Amanda Frota e Rodrigo Ferreira, e da Superintendência Federal da Pesca e Aquicultura (Ministério da Pesca e Aquicultura) – Keivia Dias.

Ana Cláudia Teixeira salienta ainda que, ao longo dos módulos, buscou-se problematizar temas pertinentes à identidade dos povos das águas, seu modo de vida e trabalho, ancestralidade e tradições; os elementos que ameaçam e promovem a saúde e a vida nos territórios pesqueiros; os conflitos e situações de injustiça ambiental decorrentes da implantação de empreendimentos como usinas eólicas, carcinicultura e turismo de larga escala; a vigilância popular em saúde frente aos impactos diversos sobre a saúde e o ambiente que afetam as pescadoras e pescadores; além de saúde e os direitos dos povos das águas. “Assim, com base em uma educação dialógica, o curso proporcionou a discussão dos problemas e das potencialidades dos territórios relacionadas ao bem viver dos povos das águas, de modo que, os problemas identificados foram foco de ações desenvolvidas pelas(os) educandas(os) junto com as comunidades locais e as potencialidades foram sistematizadas na forma de cordéis, poesia, vídeos, álbum e cartaz. Esperamos que o curso tenha contribuído para fortalecer as lutas das pescadoras e pescadores por direitos e possa continuar gerando frutos nos territórios a partir da atuação das (os) educandas (os) como agentes populares de saúde”, ratifica.
Sobre o curso

O primeiro módulo do curso proporcionou reflexões sobre quem são os povos das águas, como vivem e reproduzem suas vidas, quais são os elementos que ameaçam e promovem a saúde e a vida, o modo de produção capitalista e a determinação social da saúde, e como se configuram os conflitos socioambientais e as situações de injustiça e racismo ambiental nos territórios pesqueiros. Participaram do curso pescadores e pescadoras, marisqueiras e lideranças da pesca artesanal de comunidades do litoral do interior do estado, de Fortaleza e região metropolitana, bem como do sertão cearense.


Realizado nos dias 14 e 15 de janeiro de 2025, o Módulo 2 tratou sobre “O Sistema Único de Saúde e os direitos dos povos das águas”, com o objetivo de “ampliar e aprofundar conhecimentos sobre a história e construção do SUS, sua importância e modo de organização, entendendo seus níveis de complexidade nas redes de atenção à saúde, articulando com os direitos dos povos das águas”. Neste módulo, Amanda Frota abordou sobre o Sistema Único de Saúde (assessora da Célula de Atenção à Saúde das Comunidades Tradicionais e Populações Específicas/Secretaria de Saúde do Estado do Ceará) e Kamila Martins (INSS) sobre os direitos sociais e previdenciários dos (as) trabalhadores (as) da pesca artesanal.



O Módulo 3 abordou o tema “A sinergia entre a Saúde, o Ambiente e o Trabalho na vida de Pescadoras(es) Artesanais” e aconteceu nos dias 4 e 5 de fevereiro de 2025. Os participantes puderam ampliar e aprofundar conhecimentos sobre a relação entre a saúde física, mental e espiritual frente aos processos protetores e destrutivos nos seus territórios, modos de vida e trabalho na pesca artesanal, com a colaboração de José Gonsalves e Bianca Peixinho, pesquisadores do Laboratório de Ambiente, Saúde e Trabalho do Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco).


Já o Módulo 4 aconteceu nos dias 25 e 26 de fevereiro de 2025 e tratou sobre a “Vigilância popular em saúde e organização popular como estratégias de re-existência”. A etapa discutiu as experiências de organização popular em defesa da saúde dos povos das águas, apresentando a Vigilância Popular em Saúde (VPS) e a comunicação popular como estratégias de resistências para ressignificar as vidas no território. Este módulo teve a colaboração dos pesquisadores Fernando Carneiro, Ana Cláudia Teixeira e Vivianne Albuquerque (Fiocruz Ceará) e Bianca Peixinho (Lasat/Instituto Aggeu Magalhães). Ao longo dos três módulos, foram oferecidas práticas populares de cuidado como corredor de cuidado, escalda pés e massagem, as quais foram conduzidas pelo terapeuta e educador popular Edvan Florêncio.

Saiba mais
No Ceará, o desenho da matriz curricular contou com a colaboração dos seguintes movimentos, entidades e instituições: Articulação Nacional das Pescadoras (ANP), Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (ANEPS), Célula de Atenção à Saúde das Comunidades Tradicionais e Populações Específicas da Secretaria de Saúde do Estado, Ceará Conselho Pastoral dos (as) Pescadores (as) (CPP) e Instituto Terramar.
Depoimentos
“A realização do curso foi uma oportunidade de fortalecimento do direito à saúde dos povos das águas do Ceará, na medida em que oportunizou a aproximação da Célula de Atenção à Saúde das Comunidades Tradicionais e Populações Específicas – CEPOP junto às lideranças pescadoras. Os diálogos vivenciados sensibilizaram a equipe da Secretaria Estadual da Saúde do Ceará para o fortalecimento da Estratégia Saúde da Família em atenção às especificidades da saúde integral de pescadoras e pescadores”. – Amanda Frota (Assessora da CECOP/SESA).
“Participar do Curso de Agentes Populares de Saúde dos Povos das Águas, em parceria com a Fiocruz, foi muito importante, para a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, especialmente para a Célula de Atenção à Saúde das Comunidades Tradicionais e Populações Específicas (CECOP) considerando que essa população está inserida no nosso compromisso institucional de gerar Saúde inclusiva. Parabenizamos mais uma vez a Fiocruz pela iniciativa e colocamos à disposição para contribuir no atendimento das demandas geradas, proporcionando assim mais Saúde para o nosso Povo”. – Valéria Mendonça (Orientadora da CECOP/SESA).
“Paulo Freire nos ensina que, muito mais do que ter as respostas, a força do educador(a) está na perspicácia de fazer perguntas, pois são elas que tem a capacidade de mobilizar as pessoas a encontrarem respostas que façam sentido a seu viver, ao dizerem sua palavra dentro da sua realidade. Nesse sentido, o curso cumpriu seu papel formador, visto que ousou transpor um sistema desumanizante – que aparta o ser humano de suas raízes, do seu território e de sua comunidade – para alcançar pescadores e pescadoras artesanais oportunizando-os problematizar e refletir sobre quem são os povos das águas? O que é saúde? O que significa ser agente popular? E como cada um e cada uma pode contribuir para que os trabalhadores da pesca artesanal sejam vistos e atendidos em suas especificidades. Eles e elas puderam construir-se num processo emancipatório de perceberem-se pertencente e construtores do SUS como agente de cuidado e transformação social, potencializando saberes ancestrais e incorporando novos conhecimentos. A Fiocruz, portanto, garante o cumprimento de sua missão e ratifica seus valores de disseminar conhecimento e de se comprometer com o socioambiental. Dessa maneira, não há dúvidas do quanto esse curso produzirá frutos nas comunidades e do quanto processos como esse precisam ser contínuos na busca por uma vida integralmente plena e saudável para essas populações, suas comunidades e seus territórios”. – Shirley Almeida (Conselho Pastoral dos(as) Pescadores(as) do Ceará – CPP).
“O curso Agentes Populares de Saúde dos Povos das Águas foi extremamente importante, no que refere à formação de pescadoras, pescadores e lideranças comunitárias para atuação na promoção da saúde nos territórios, refletindo sobre as intervenções causadas pelo modelo de sociedade que violam direitos e promovem doenças. Os territórios pesqueiros estão em constante ameaça, frente a isso, um modo de vida resistente, pulsante e vivo, construindo estratégias de permanência e promovendo bem viver. A formação fortalece essa vida em movimento, esse jeito de fazer saúde”. – Romária Holanda (Coordenadora do Instituto Terramar).
“Sinto-me muito orgulhosa e honrada de estar aqui representando a Articulação Povos de Luta do estado do Ceará, meu assentamento e a minha comunidade. Quero dizer o quão rico foi a oportunidade que nos foi dada, o quão importante é esse curso e o quão ele será importante daqui pra frente, porque eu tenho a oportunidade de estar colocando em prática no meu trabalho e no meu dia a dia com o meu povo”. – Francisca Ourives é da comunidade de Matilha, assentamento Sabiaguaba, município de Amontada. Filha de agricultor e de pescadora/agricultora aposentada e aluna do curso Agentes Populares de Saúde dos Povos das Águas.
“Eu levo uma experiência única porque o curso, desde a sua construção, foi cada aula um aprendizado, cada experiência uma nova etapa de vida. Para mim ele foi maravilhoso e vai continuar sendo porque desde o primeiro módulo, eu já levei a experiência para a base, e, no caso, muitas pessoas da comunidade aceitam eu fazer o curso. Eu, por experiência que sou da comunidade que pesca também, é muito importante a gente ter esses conhecimentos nesses cursos, nessa troca de experiência que a gente leva de uma cidade, de uma comunidade para outra e até dos outros estados, é muito bom, é muito maravilhoso. E eu hoje estou muito feliz por fazer parte desse curso maravilhoso com a professora Cláudia, Bianca, Fernando, Vivianne e todos que fizeram parte dele. Eu levo como experiência tudo que eu aprendi aqui no curso para a base. Eu amei o curso e se for para continuar, eu continuo. Foi nota mil”. – Lourdes Lima é da Comunidade Pesqueira de Guajiru, município de Fortim e educanda do curso.
“Esse curso tem feito um diferencial e, estou conseguindo, a partir das ações que estão sendo apresentadas aqui, ter uma visão mais ampla das lutas de nós mulheres, das lutas dos povos das águas, quer seja ela do litoral, quer seja ela dos povos dos açudes ou dos rios, para garantir, realmente, que a gente tenha condições de chegar aonde a gente quer chegar, que é garantia de direito para aqueles e aquelas que lutam tanto pela sustentabilidade”. – Daniela Cavalcante, faz parte da Cáritas Diocesana de Crateús, do Território dos Sertões, da Região dos Inhamuns.
“Estou muito feliz nesse momento, com esses laços com a Fiocruz, com a participação da professora Cláudia. Quero falar da gratidão e do prazer de estar esses dias juntos. Finalizamos esse momento, mas acredito que há mais caminhadas quando a gente discute Saúde e Ambiente. Essa relação desses espaços, povos e tradições são importantes, e pensar nessas políticas também, que dão direitos aos povos dos territórios tradicionais. Dizer também sobre o espaço da Fiocruz, que foi muito marcante esse curso ter sido realizado na Fiocruz, porque a gente se apropria desse espaço, que é importante no nosso processo de saúde. Estamos nos territórios, fazendo essa luta constante, diária, em prol de nossa saúde e do nosso ambiente, e dizer que ter a Fiocruz como companheira nesse processo de cuidado e de saúde é importantíssimo. O curso um pouco disso: de nos unirmos e darmos as mãos para que a gente não caminhe só, porque a gente, que está nos territórios, precisa desse apoio das instituições e a Fiocruz é uma que nos abraça e a gente espera caminhar juntos”. – Cleomar Ribeiro é quilombola, do Cumbe/Aracati, pescadora e educanda do curso.
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