Pesquisa liderada pela Fiocruz Ceará sobre a luta contra os agrotóxicosganha “Oscar” da Vigilância do SUS

O resultado de estudo liderado por pesquisadores da Fiocruz Ceará/Participatório em Saúde e Ecologia de Saberes que expressa a luta histórica das comunidades da Chapada do Apodi contra os impactos dos agrotóxicos recebeu um dos mais importantes reconhecimentos da saúde pública brasileira: o prêmio da 18ª Mostra Nacional de Experiências Bem-Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (ExpoEpi). A premiação, segundo o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, é considerada o “Oscar” da Vigilância do Sistema Único de Saúde (SUS). O anúncio aconteceu na última sexta-feira (17/4), em Brasília.
A experiência premiada está diretamente relacionada ao artigo científico “Vigilância Popular em Saúde: luta emancipatória pela vida ante o agronegócio na Chapada do Apodi-CE”, desenvolvido em parceria entre comunidades do território, movimentos sociais, M21, Cáritas Limoeiro do Norte, CERESTA Zé Maria do Tomé, universidades públicas (UFC e UFRN) e o Participatório em Saúde e Ecologia de Saberes da Fiocruz Ceará. O estudo sistematiza uma pesquisa-ação que articula ciência, saberes populares e participação social para denunciar os impactos do agronegócio e fortalecer a defesa da vida, da saúde e do ambiente.

O artigo que fundamenta a experiência premiada demonstra como a Vigilância Popular em Saúde (VPS) tem sido construída pelas comunidades da Chapada do Apodi como estratégia de enfrentamento aos conflitos ambientais provocados pelo uso intensivo de agrotóxicos. A pesquisa evidencia indicadores produzidos a partir da vivência cotidiana — como contaminação da água, adoecimento, morte de abelhas e impactos no trabalho e na soberania alimentar — transformando-os em dados e ações concretas de vigilância popular em saúde a partir da organização comunitária integrada com movimentos populares.
A pesquisa foi vencedora da modalidade Pesquisas Científicas – Mais Ciência para o SUS, para pesquisadores vinculados a instituições de ensino superior ou de ciência e tecnologia sem fins lucrativos, que tenham publicado artigos originais em revistas indexadas nas bases de dados como Medline, Embase, Scopus, Web of Science ou Scielo, dentro do período estabelecido, com potencial para melhorar as ações de vigilância em saúde, prevenção e controle de doenças e agravos no Brasil.
Segundo Fernando Carneiro, coordenador da pesquisa e do Participatório, a luta das comunidades e movimentos populares pelo direito à saúde e ambiente gerou conquistas como a promulgação da única lei estadual de proibição de pulverização aérea de agrotóxicos e a criação do único Centro de Saúde do Trabalhador e Ambiente/SESA do Brasil. “Isso é uma forte evidência dos resultados que a Vigilância Popular pode contribuir para o SUS e com a melhora da qualidade de vida da população”, ratifica.

Reginaldo Ferreira, representante do Movimento 21 e coautor do artigo, participou da EXPOEPI e enalteceu a conquista. “Este prêmio é de fundamental importância porque legítima nossa luta e fortalece outros territórios no Brasil que estão vivenciando a mesma problemática, de pulverização aérea de veneno por drone”. Ele relembrou o simbolismo da data da premiação, no dia 17 de abril, Dia Internacional da Luta Camponesa, quando há 30 anos acontecia o “massacre de Eldorado dos Carajás”. “Essa vitória fortalece a luta e reverencia os trabalhadores rurais em defesa da terra e do ambiente saudável de Zé Maria do Tomé”.
Marcia Xavier, diretora do CERESTA e coautora do artigo, considera que a “pesquisa vem nos mostrar uma nova realidade que valoriza o poder popular frente os conflitos territoriais e o papel dos protagonistas das experiências para denunciar os riscos à saúde e ao ambiente, potencializando ações da vigilância em saúde do SUS”.

Representando as comunidades de produção agroecológicas impactadas pelo agronegócio na região, Aline Maia, membro da Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte e autora do artigo, considera a pesquisa importante porque, além de proporcionar uma escuta das comunidades por profissionais de saúde, reconhece o trabalho de vigilância popular em saúde que as comunidades têm realizado, aproximando-as do SUS e fortalecendo a luta por um território mais saudável. “Ganhar esse prêmio nas vésperas da data em que recordamos o martírio de Zé Maria só reafirma para nós que Zé Maria virou semente e tem brotado no chão do Baixo Jaguaribe”.
Fernando Carneiro destaca que a coautoria do artigo foi coerente com a proposta de uma pesquisa ação, com destaque para os protagonistas da experiência de Vigilância Popular pertencentes ao M21, Cáritas e CERESTA/SESA, que também viajaram para Brasília e participaram da Mostra. “Eles participaram desde a concepção do projeto de pesquisa, sua implantação, análise, sistematização e divulgação dos resultados”.
O valor do prêmio será direcionado para a construção de um memorial da luta contra os agrotóxicos na região e apoio para as comunidades agroecológicas. O troféu da EXPOEPI já está na comunidade e irá compor esse memorial.

Sobre a Mostra
Promovida pelo Ministério da Saúde, a ExpoEpi 2026 aconteceu em Brasília, de 13 a 17 de abril, e reforçou o papel estratégico da ciência, da inovação e da democracia para o fortalecimento do SUS. Nesta edição, o evento teve como eixo central a “Saúde e Mudanças Climáticas”, destacando experiências capazes de enfrentar desigualdades socioambientais nos territórios.
Nesta edição, mais de 1.500 trabalhos foram inscritos, sendo 114 selecionados para apresentação e apenas 60 classificados para a mostra competitiva.
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Tags: Fiocruz Ceará, Participatório em Saúde e Ecologia de Saberes, Vigilância popular.