Fiocruz Ceará analisa mortalidade em internações por transtornos mentais

Os estudos “Hospital mortality among psychiatric inpatients: a cross-sectional study, Brazil, 2023” e “Causes of Death During Psychiatric Hospitalization: An 11-Year Matched Case–Case Study in Northeast Brazil”, publicados em 2026, constituem duas pesquisas empíricas complementares dentro do projeto “Mortalidade de populações especialmente vulneráveis”, desenvolvido na Fiocruz Ceará, sob a coordenação do pesquisador titular Maximiliano Ponte, que articulam diferentes níveis de análise da mortalidade em contexto psiquiátrico.
O primeiro estudo, de base nacional, publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, e delineamento transversal, analisa a mortalidade hospitalar entre pacientes internados por transtornos mentais e comportamentais no Brasil em 2023. Foram mais de 125 mil internações analisadas, com pouco mais de 200 óbitos — o que corresponde a uma mortalidade baixa (cerca de 1 morte a cada 1.000 internações). Ainda assim, essas mortes se distribuem de forma desigual. A ocorrência foi maior entre homens, idosos e pacientes internados há poucos dias, além de ser mais frequente em hospitais gerais do que em hospitais psiquiátricos. Esses achados mostram que, mesmo sendo rara, a morte nesse contexto segue um padrão desigual, refletindo diferenças na gravidade dos casos, na organização da assistência e na capacidade de resposta dos serviços.
O segundo estudo, desenvolvido em parceria com o pesquisador Márcio Flávio Moura de Araújo, também da Fiocruz Ceará, e publicado no International Journal of Psychiatry in Medicine, aprofunda essa análise ao comparar diretamente as causas de morte entre hospitais psiquiátricos e não psiquiátricos no Ceará ao longo de 11 anos. Foram analisados mais de uma centena de óbitos em hospitais psiquiátricos, comparados com outros semelhantes fora desse contexto. O que chama atenção é que, nesses hospitais, as mortes por doenças cardiovasculares são mais frequentes (cerca de 4 em cada 10 casos) e aparecem com maior proporção do que em outros tipos de hospital. Também se destacam aquelas mortes em que a causa não é bem definida ou a intenção não fica clara — situações mais frequentes nesse contexto. Esse conjunto de achados sugere não apenas a presença de doenças clínicas relevantes, mas também limitações na definição diagnóstica e na certificação da causa básica de morte.
Considerados de forma integrada, os estudos permitem uma compreensão mais abrangente da mortalidade em contexto psiquiátrico, ao articularem um plano mais geral, de alcance nacional, com a análise de contextos específicos de ocorrência do óbito. O primeiro delimita a ocorrência do óbito e suas características associadas durante a internação. O segundo qualifica essa análise ao demonstrar que tais diferenças se expressam também na distribuição e na definição das causas de morte, com maior frequência de categorias inespecíficas em ambientes psiquiátricos. Em conjunto, os achados indicam que a mortalidade nesse grupo não se restringe a determinantes clínicos, mas envolve também aspectos relacionados à organização da assistência e à qualidade da informação em saúde. Nesse sentido, esses resultados ampliam a compreensão do fenômeno e sugerem possíveis desdobramentos para a organização do cuidado e para a produção da informação em saúde.
Do ponto de vista das políticas públicas, os achados reforçam a necessidade de qualificação da atenção hospitalar em saúde mental, com maior integração entre o cuidado psiquiátrico e o manejo de condições clínicas gerais, especialmente as doenças cardiovasculares. Indicam, ainda, a importância de aprimorar os processos de vigilância e certificação dos óbitos, com ênfase na redução de causas mal definidas e de intenção indeterminada. Para a pesquisa, os resultados apontam a necessidade de estudos que aprofundem os determinantes dessas diferenças, incorporando análises mais detalhadas sobre organização dos serviços, trajetórias assistenciais e qualidade da informação em saúde, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias mais efetivas de redução de iniquidades em populações especialmente vulneráveis.
Referências
Ponte de Souza ML. Hospital mortality among psychiatric inpatients: a cross-sectional study, Brazil, 2023. Epidemiol Serv Saude. 2026;35:e20250668. doi:10.1590/S2237-96222026000350668
Ponte de Souza ML, Moura de Araújo MF. Causes of death during psychiatric hospitalization: an 11-year matched case–case study in Northeast Brazil. Int J Psychiatry Med. 2026;0(0):1–11. doi:10.1177/00912174261445498
During Psychiatric Hospitalization: An 11-Year Matched Case–Case Study in Northeast Brazil. International Journal of Psychiatry in Medicine. 2026;0(0):1–11. doi:10.1177/00912174261445498

O projeto “Mortalidade de populações especialmente vulneráveis”, coordenado pelo senhor, reúne diversas pesquisas. O que motivou o senhor a estruturar um projeto com esta temática?
Pessoas em situação de vulnerabilidade, seja por questões de gênero, idade, etnia ou por viverem com doenças ou transtornos estigmatizantes, sofrem de diversas formas. Parte importante desse sofrimento, no entanto, permanece invisível, muitas vezes pela ausência ou pela baixa qualidade das informações disponíveis. Esse sofrimento, de um lado, e essa invisibilidade, de outro, foram grandes motivadores para estruturar esse macroprojeto de pesquisa.
Mas por que estudar como essas pessoas morrem? Em primeiro lugar, é importante destacar que o Brasil dispõe, de forma gratuita e acessível, de um volume expressivo de dados sobre mortalidade, organizados e mantidos pelo Sistema Único de Saúde, o SUS, um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. No entanto, dados, por si só, não são suficientes. Dados são registros brutos. Informação é o resultado da sua organização, análise e interpretação. Transformar dados em informação é, portanto, uma tarefa central da pesquisa em saúde coletiva, pois permite identificar padrões, compreender desigualdades e produzir conhecimento útil para a sociedade.
Por outro lado, estudar como as pessoas morrem é uma forma de compreender como elas viveram e como o cuidado em saúde está organizado. É uma forma, ainda que indireta, de acessar os desafios enfrentados em vida. A mortalidade não é apenas um desfecho biológico. Ela também expressa desigualdades, formas de acesso aos serviços e limites da assistência. No caso das internações por transtornos mentais, esse é um tema ainda pouco explorado, especialmente no Brasil, com escassez de estudos que analisem de forma sistemática a ocorrência de óbitos durante a hospitalização e, sobretudo, as causas dessas mortes. Essa lacuna foi um dos principais motivadores para o desenvolvimento desses estudos.
Os estudos mostram que, embora a mortalidade durante internações psiquiátricas seja baixa, ela não se distribui de forma homogênea. O que esses padrões revelam sobre o cuidado e sobre as condições em que esses pacientes são atendidos?
É importante destacar, inicialmente, que os estudos não avaliam diretamente a qualidade do cuidado, mas analisam padrões observados na ocorrência dos óbitos e na distribuição das causas de morte. Dessa forma, ainda que de maneira indireta, os resultados permitem identificar elementos que podem estar associados a fragilidades, sobretudo na forma como essas fragilidades se distribuem de maneira desigual entre diferentes grupos e contextos.
No estudo nacional, por exemplo, observamos que os óbitos, embora raros, se concentram em determinados grupos, como homens, idosos e pacientes internados há poucos dias. Esse último achado é especialmente relevante. Os primeiros dias de internação parecem ser um período mais crítico, concentrando uma parcela importante dos óbitos. Esse padrão levanta algumas questões importantes, entre elas possíveis dificuldades no reconhecimento e manejo de doenças clínicas em pacientes em quadros agudos graves de transtornos mentais. Também chama atenção a necessidade de melhor articulação entre o cuidado psiquiátrico e a clínica médica geral, além de possíveis limitações na disponibilidade e no acesso oportuno a recursos diagnósticos.
No estudo realizado no Ceará, ao analisar as causas de morte, chamou-nos atenção a maior frequência de doenças cardiovasculares, mas, sobretudo, as mortes cujas causas eram, de algum modo, pouco claras. E veja: são mortes que ocorrem dentro de um estabelecimento de saúde. Ainda assim, não se consegue definir com alguma precisão do que se morreu. Aqui se evidencia, de forma bastante clara e mesmo dramática, um dos pressupostos que nos motivaram a investigar populações vulneráveis: a invisibilidade. Trata-se de pessoas que, em alguma medida, foram invisibilizadas em vida e que, mesmo após o óbito, permanecem parcialmente invisíveis nos registros sobre suas próprias mortes. Nesse contexto, a própria opacidade do dado torna-se informação.
Quais são os principais desdobramentos desses estudos e que aspectos merecem maior atenção no cuidado e na organização dos serviços de saúde?
Penso que uma das principais contribuições desses estudos é justamente levantar pontos que podem estar associados a fragilidades e que merecem atenção mais cuidadosa. Um deles é a necessidade de olhar com maior atenção para os pacientes recém-admitidos por transtornos mentais. O foco prioritário, ou por vezes quase exclusivo, nas questões psiquiátricas pode acabar invisibilizando a presença de comorbidades clínicas.
Entre essas comorbidades, destacam-se as doenças cardiovasculares. Sabe-se que pessoas com transtornos mentais, especialmente os mais graves, apresentam maior frequência de fatores de risco, como obesidade e tabagismo, além dos efeitos metabólicos associados a algumas medicações. Nesse sentido, os resultados apontam para a importância de fortalecer estratégias de triagem e detecção precoce dessas condições, bem como de garantir acesso oportuno a exames diagnósticos durante a internação, em articulação com a rede de atenção à saúde.
Ao mesmo tempo, esse tema não se esgota no contexto hospitalar. Ele aponta também para a importância de um acompanhamento clínico mais contínuo após a alta. Nesse ponto, a atenção primária à saúde pode ter um papel fundamental. Habitualmente, quando se discute o papel da atenção primária nas questões de saúde mental, o foco recai sobre as estratégias de cuidado psicossocial. No entanto, há uma dimensão que pode ser mais bem explorada: o acompanhamento da saúde geral desses pacientes, especialmente daqueles com transtornos mentais mais graves e egressos de internações psiquiátricas.
Outro ponto importante diz respeito à necessidade de qualificar a definição das causas de óbito. Os estudos mostram maior frequência de categorias pouco específicas, o que indica desafios na atribuição precisa da causa da morte. Nesse aspecto, pesquisas adicionais são fundamentais para compreender melhor os fatores que podem estar associados a esse padrão.
Entre essas situações, merece especial atenção o conjunto das mortes por causas externas, particularmente aquelas classificadas como de intenção indeterminada. Esse é um ponto sensível, sobretudo porque a internação psiquiátrica, em muitos casos, tem também uma função de proteção, inclusive em situações de risco de autoagressão.
A presença relativamente elevada de mortes com intenção não claramente definida, associada ao baixo número de óbitos registrados como suicídio, levanta a hipótese de possíveis dificuldades na classificação desses eventos. Trata-se de uma questão complexa, que envolve limites diagnósticos, condições de registro e também aspectos institucionais e sociais relacionados à certificação dos óbitos. Esse é um campo que exige investigação cuidadosa, evitando conclusões simplificadoras, mas reconhecendo a importância do problema.
Em síntese, os desdobramentos apontam para a necessidade de qualificar a avaliação clínica no momento da admissão, ampliar a integração entre o cuidado em saúde mental e a clínica médica geral e aprimorar os processos de definição e registro das causas de morte. Indicam também a importância de ampliar o acompanhamento clínico desses pacientes para além do ambiente hospitalar, com potencial papel da atenção primária à saúde. Não se trata de apresentar respostas prontas, mas de indicar direções que podem orientar tanto a organização dos serviços quanto o desenvolvimento de novas pesquisas.
Quais são as implicações das limitações na definição das causas de morte para a formulação de políticas públicas e que caminhos podem ser considerados para qualificar essas informações?
A dificuldade em definir com maior precisão as causas de morte tem implicações diretas para a formulação de políticas públicas. Não saber exatamente do que as pessoas morrem dificulta a elaboração de estratégias de enfrentamento, seja nesse contexto específico ou em qualquer outro campo da saúde. A qualidade da informação é, portanto, um elemento central para a tomada de decisão. Nesse sentido, há diferentes possibilidades que podem ser consideradas para qualificar esse processo. Entre elas, a necessidade de fortalecer a formação e o apoio técnico aos profissionais responsáveis pela certificação dos óbitos, especialmente em situações mais complexas.
Outra possibilidade é o desenvolvimento de estratégias de investigação de óbitos selecionados, particularmente aqueles classificados como de causa mal definida ou de intenção indeterminada. Em alguns contextos, iniciativas como comitês de mortalidade poderiam ser pensadas, a exemplo do que ocorre em outras áreas, como a mortalidade materna e infantil. No entanto, é importante considerar que se trata de eventos relativamente raros, o que pode limitar a viabilidade e a priorização de estratégias mais estruturadas desse tipo.
De forma geral, essas não são propostas acabadas, mas possibilidades que precisam ser cuidadosamente pensadas, avaliadas quanto à sua pertinência e viabilidade e, caso implementadas, devidamente monitoradas. O mais importante é reconhecer que a qualificação da informação sobre mortalidade é um passo fundamental para compreender melhor o problema e, a partir daí, orientar ações mais consistentes no âmbito do SUS.
De que forma esses estudos podem contribuir para qualificar o SUS, especialmente no que diz respeito à produção e ao uso da informação em saúde?
A principal contribuição desses estudos para o aprimoramento do SUS está na sua capacidade de transformar dados em informação. Como já mencionado, o Brasil dispõe de sistemas robustos de informação em saúde, mas esses dados, por si só, não produzem mudança. É a análise cuidadosa que permite identificar padrões, compreender desigualdades e tornar visíveis questões que muitas vezes passam despercebidas na rotina dos serviços.
Nesse sentido, os estudos ajudam a dar visibilidade a aspectos pouco explorados, como a concentração de óbitos nos primeiros dias de internação e a presença de causas de morte pouco definidas em ambientes hospitalares. Esses achados não oferecem respostas prontas, mas qualificam o olhar sobre o problema e ampliam a compreensão sobre como o cuidado está organizado.
Não se busca resposta para problemas que não se conhece. Ao evidenciar padrões e lacunas, esses trabalhos contribuem para ampliar e qualificar o debate, fornecer subsídios para gestores e para o controle social, apoiar a tomada de decisão e tensionar a busca por soluções de enfrentamento, criando condições mais consistentes para o aprimoramento do cuidado no SUS.
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