2ª Jornada de Saúde Indígena reúne povos na Fiocruz Ceará e pauta impactos da crise climática nos territórios
Abril de Lutas em Defesa do Território e do Bem Viver mobilizou povos indígenas, pesquisadores, profissionais de saúde indígena e gestores em torno de estratégias de cuidado e vigilância popular em saúde no enfrentamento às vulnerabilidades no semiárido
Realizada nos dias 17, 28, 29 e 30 de abril, no Ceará, a 2ª Jornada de Saúde Indígena: Abril de Lutas em Defesa do Território e do Bem Viver reuniu lideranças indígenas, pesquisadores, profissionais de saúde indígena e gestores públicos em uma programação que articulou cultura, formação e construção coletiva de propostas voltadas à saúde indígena no estado. Com atividades em Crateús e na Fiocruz Ceará, o encontro ampliou o diálogo entre saberes tradicionais, ciência e políticas públicas, tendo como eixo central as questões que ameaçam e promovem a vida nos territórios indígenas diante das emergências climáticas.
Com cerca de 271 representantes de etnias indígenas, entre elas Tremembé, Jenipapo Canindé, Kanindé, Isú-Kariri, Anacé, Tapeba, Tupinambá, Kariri, Pitaguary, Tabajara, Potiguara, Kalabaça, Tapuia Kariri Gavião e Tubiba Tapuia, e aproximadamente 307 participantes no total, a 2ª Jornada teve como objetivo promover o intercâmbio entre os povos indígenas de diferentes territórios do Ceará, dando visibilidade e contribuindo para o fortalecimento de seus modos de vida, experiências, saberes e práticas voltadas ao cuidado, à promoção e à vigilância popular em saúde para o bem viver. A proposta também buscou discutir potencialidades, situações de injustiça ambiental, impactos socioambientais, riscos e danos à saúde que afetam os territórios indígenas, além de fomentar o diálogo de saberes entre os povos indígenas, a academia, o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena e os diversos setores presentes.
A atividade teve início no dia 17 de abril, com a IV Feira Cultural Raízes Indígenas, realizada na Escola Indígena Raízes de Crateús. O encontro marcou a abertura a partir da valorização dos modos de vida, da cultura e dos saberes ancestrais, reafirmando que a saúde, para os povos indígenas, está diretamente vinculada à preservação do território e à continuidade de suas práticas tradicionais.
Para a liderança indígena Gizele Tabajara, a feira foi um espaço de afirmação dos modos de vida dos povos indígenas. “A feira é onde a gente compartilha nossos saberes, nossa espiritualidade e nossa forma de cuidar do território. Quando falamos de saúde indígena, falamos de tudo isso junto, da terra, da cultura, da alimentação e dos nossos rituais. A feira reúne diferentes etnias e expressa o que vivemos no território, com artesanato, comidas tradicionais e saberes das nossas medicinas. Tudo isso faz parte do nosso modo de cuidar da vida”, afirmou.





Nos dias 28, 29 e 30 de abril, a programação seguiu na Fiocruz Ceará, com atividades voltadas à formação, à troca de experiências e à construção de propostas. No dia 28, foi iniciado o último encontro do curso “Cuidado, Vigilância Popular em Saúde e Emergência Climática em Território Indígena no Semiárido”, reunindo agentes indígenas de saúde (AIS), agentes indígenas de saneamento (AISAN), Agentes de Combate às Endemias Indígenas (ACESI) e lideranças indígenas do Polo Crateús. A formação foi coordenada por Vanira Matos Pessoa, coordenadora de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz Ceará, e partiu da realidade vivida nas aldeias para discutir estratégias de enfrentamento às vulnerabilidades socioambientais.
As atividades desse dia dialogaram diretamente com resultados de uma pesquisa conduzida por Vanira Pessoa, que investigou como os povos indígenas do semiárido constroem respostas às mudanças climáticas a partir de seus modos de vida, por meio de uma abordagem participativa desenvolvida junto às comunidades.

O trabalho envolveu 81 participantes de mais de 50 aldeias em municípios como Crateús, Monsenhor Tabosa, Novo Oriente e Quiterianópolis, incluindo lideranças indígenas, pajés, caciques, jovens, praticantes das medicinas indígenas, educadores e profissionais de saúde.
Os resultados apontaram para um cenário de sobreposição de vulnerabilidades socioambientais, marcado pela escassez de água, degradação ambiental, desmatamento e contaminação de fontes hídricas, com impactos diretos sobre a saúde, a alimentação e as práticas tradicionais de cuidado. Também foram identificadas ameaças como mineração, uso de agrotóxicos e a ausência de demarcação de terras, além de efeitos na saúde mental, especialmente entre jovens.
A pesquisa sistematizou caminhos de enfrentamento construídos pelas próprias comunidades, como ações de reflorestamento, proteção de nascentes, fortalecimento da medicina tradicional e estratégias de vigilância popular em saúde.












Para a pesquisadora Vanira Pessoa, essas iniciativas mostram que as respostas aos desafios vivenciados já estão sendo construídas nos próprios territórios. “Os caminhos de enfrentamento passam pelo fortalecimento das práticas tradicionais, pela organização comunitária e pela garantia de políticas públicas. São respostas que nascem do território e que dialogam diretamente com as necessidades vividas pelas comunidades, especialmente diante das mudanças climáticas”, afirmou.

No dia 29, a programação teve início com um Toré de acolhimento, conduzido por Teka Potiguara, Luísa Canuto e Eleniza Tabajara, seguido da mesa de abertura, que reuniu representantes de instituições públicas, entidades e organizações indígenas com atuação no estado.
Participaram da mesa, representando a Fiocruz Ceará, Ana Cláudia de Araújo Teixeira, coordenadora de Educação, Informação e Comunicação, e Vanira Matos Pessoa, coordenadora de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde, ambas coordenadoras da 2ª Jornada de Saúde Indígena; o coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena do Ceará (DSEI), Lucas Guerra; a orientadora da Célula de Atenção à Saúde das Comunidades Tradicionais e Populações Específicas da Secretaria da Saúde do Ceará (SESA), Valéria Mendonça, representando a secretária Tânia Mara Coelho; a presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI), Naara Nascimento Costa (Naara Tapeba); a presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Ceará (AMICE), Glaubiana Alves; o representante da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME), João Cassimiro do Nascimento Neto (Cassimiro Tapeba); e o advogado e liderança indígena Ricardo Weibe Nascimento Costa (Weibe Tapeba), ex-secretário de Saúde Indígena do Ministério da Saúde.

Para a orientadora da Secretaria da Saúde do Ceará, Valéria Mendonça, o desafio passa pela ampliação do acesso e pela equidade no cuidado. “A saúde é um direito e precisa alcançar também as populações tradicionais. Ainda há muitos desafios, mas é fundamental fortalecer políticas que garantam esse acesso de forma mais equitativa”, afirmou.
Para o coordenador do DSEI, Lucas Guerra, o encontro reuniu uma diversidade de vozes que refletem a realidade dos territórios. “Esse é um momento que poderia ser visto como uma grande assembleia dos povos indígenas do Ceará, pela representatividade que reúne”, afirmou.
Para a presidente do CONDISI, Naara Tapeba, o encontro também teve um papel importante de reconexão entre os povos. “Momentos como esse são essenciais, porque fortalecem o encontro entre os parentes. Estar junto novamente também faz parte do nosso cuidado”, afirmou.
A presidente da AMICE, Glaubiana Alves, destacou a importância do reencontro entre as lideranças indígenas. “Ver tantas lideranças reunidas mostra a força desse momento e a importância de estarmos juntas”, afirmou.
Ao tratar da dimensão territorial da saúde, Cassimiro Tapeba reforçou a centralidade desse debate. “Não existe bem viver sem a proteção da terra e das condições de vida dos povos”, afirmou.
Na mesma linha, o advogado e liderança indígena, Weibe Tapeba, destacou a necessidade de que as políticas públicas considerem as especificidades dos territórios indígenas. “Não dá para pensar saúde sem considerar as territorialidades. É preciso que as políticas dialoguem com a realidade dos povos”, afirmou.


Ao longo da manhã, foram apresentadas experiências de pesquisa em saúde indígena, com destaque para estudos desenvolvidos pela Fiocruz Ceará no âmbito do SERPOVOS – Saúde, Cuidado e Saberes e do Participatório em Saúde e Ecologia de Saberes, que abordaram a relação entre modos de vida, mudanças climáticas, vigilância popular em saúde e produção do cuidado nos territórios. Foi apresentada uma pesquisa sobre o mapeamento dos especialistas em medicinas indígenas do Ceará, iniciativa coordenada pelo Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz).



À tarde, os debates avançaram com a mesa redonda sobre Vigilância em Saúde nos Territórios Indígenas, que debateu os temas vigilância ambiental e da água, gestão de recursos hídricos no semiárido e estratégias de enfrentamento às emergências em saúde associadas às mudanças climáticas, reunindo representantes da Secretaria da Saúde do Ceará (SESA), do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), da Secretaria de Recursos Hídricos e da Fiocruz Ceará.

As exposições abordaram a vigilância em saúde ambiental e da água, com participação de Úrsula Caminha, da Célula de Vigilância Ambiental (CEVAM/SESA); a vigilância da água com Márcio da Silva Castro, Sarah Lacerda Farias e Leiluan Igo Carvalho de Mesquita, do Serviço de Edificações e Saneamento Ambiental Indígena (SESANI/DSEI); a gestão dos recursos hídricos no semiárido, com Carlos Magno Feijó Campelo, da Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará; e a vigilância popular em saúde frente às emergências climáticas, com Fernando Carneiro, do Participatório em Saúde e Ecologia de Saberes/Fiocruz Ceará.
Ao abordar a vigilância ambiental, Úrsula Caminha destacou a importância do monitoramento contínuo das condições ambientais nos territórios. “A vigilância é essencial para antecipar riscos e proteger a saúde das comunidades”, afirmou.
Na discussão sobre saneamento, Márcio da Silva Castro, Sarah Lacerda Farias e Leiluan Igo Carvalho de Mesquita chamaram atenção para os desafios estruturais nas aldeias. “Garantir acesso à água e ao saneamento ainda é um dos principais desafios para a saúde indígena”, pontuaram.
Já na gestão dos recursos hídricos no semiárido, Carlos Magno Feijó Campelo ressaltou as limitações impostas pelo território. “O acesso à água exige estratégias específicas diante da escassez e da irregularidade climática”, afirmou.
Ao tratar da vigilância popular em saúde, Fernando Carneiro destacou o papel das comunidades na construção de respostas às emergências climáticas. “As próprias comunidades são protagonistas na identificação dos problemas e na construção de soluções”, afirmou.





A programação incluiu ainda a exposição de pôsteres de pesquisas em saúde indígena realizadas pelo SERPOVOS, Participatório em Saúde, e desenvolvidas no escopo dos Programas de Pós-graduação em Saúde da Família da Rede Nordeste de Saúde da Família e do ProfSaúde, do Curso de Especialização em Educação Popular em Saúde e oriundas de parcerias com outras instituições de ensino e pesquisa. Na ocasião, houve o lançamento do vídeo “Ancestralidade, Cuidado e Saberes Indígenas no Sertão”, que destacou as práticas de cuidado, os saberes tradicionais e as relações dos povos indígenas com o território no sertão cearense. Ao longo de todo o encontro, houve a Feira de Saberes Tradicionais com a exposição de artefatos, artesanato, objetos e adornos corporais indígenas das diversas etnias do Ceará e a exibição de vídeos curtos frutos das pesquisas realizadas pela Fiocruz Ceará.










No dia 30, a jornada foi dedicada à construção coletiva de propostas por meio de rodas temáticas que reuniram representantes de diversas etnias indígenas, profissionais de saúde e pesquisadores em grupos, cujo trabalho foi orientado por três questões centrais: “o que promove a vida nos territórios indígenas, o que ameaça a vida nos territórios indígenas e qual pode ser a contribuição da Fiocruz Ceará nesse contexto”.






As discussões resultaram na apresentação de sínteses em plenária que apontaram caminhos para atuação em pesquisa, formação e extensão contemplando temas como acesso à água; proteção e cuidado com o território; respeito e cuidado com a natureza e a biodiversidade; fortalecimento da medicina tradicional, ancestralidade e cultura indígena viva; sistemas agroflorestais; promoção da saúde mental; demarcação da terra; invisibilidade e silenciamento dos povos indígenas; queimadas; desmatamento; violência; conflitos; impactos da mineração e do agronegócio; agrotóxicos; intercâmbios culturais entre os povos; e ampliação da participação social nas políticas públicas.

Para Ana Cláudia Teixeira, o encontro possibilitou a troca de experiências e vivências entre as diversas etnias e apontou para a necessidade de reconhecer e valorizar o que já é produzido nos territórios indígenas. “A jornada mostra que muitas soluções para os desafios identificados estão nos saberes ancestrais, nas práticas, no modo de vida e nas formas de organização dos povos indígenas, e precisam ser reconhecidas e fortalecidas, especialmente no contexto das emergências climáticas e de transformações socioambientais cada vez mais presentes nos territórios indígenas”, afirmou.
Abril de Lutas em Defesa do Território e do Bem Viver teve apoio da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), através da 2ª Chamada Abril Indígena – 2026.




